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Economia de Beira de Estrada

Por Antônio Teodoro

A formação econômica do Brasil fornece caminhos interessantes e diversos. Cada região possui sua base histórica e muitas estão atreladas as características dos primeiros exploradores, que significa dizer, retratam a sua cultura estrangeira.

Outras, de forma indispensável e inquestionável, criam-se e desenvolvem sua rede econômica baseada nas potencialidades dos recursos naturais e a capacidade destas fontes alimentares em prover recursos à sociedade que ali tenta desempenhar suas atividades.

Normalmente, tem-se um pólo de atração urbano que permite a interação entre outras cidades menores, mas que normalmente concentra-se com atividades industriais e serviços de qualidade, enquanto orbita em sua volta, cidades estritamente agrícolas.

O bom desempenho econômico destas cidades agrícolas fica atrelado ao sucesso de uma safra proveitosa. Os centros urbanos, que conectam e provêm, por exemplo, serviços de saúde, acabam conseguindo neutralizar os efeitos de uma ou outra economia agrícola desafortunada com o progresso de outra cidade agrícola.

A agricultura familiar tem papel central na dinâmica econômica. A disponibilidade do solo, a forma e o acesso aquelas regiões são fatores que influenciam de forma direta a sua capacidade de desenvolver e promover o progresso econômico àqueles que ali residem. Significa dizer que não basta produzir, tem que entregar a produção. Escoamento produtivo é um problema crônico brasileiro presente desde os grandes centros urbanos até os pequenos municípios.

No passado, as rotas ferroviárias desempenharam função de eixo desbravador e formador de cidades. Todas as sociedades urbanas que continham uma Estação acabavam desenvolvendo sua atividade mercantil de forma mais concreta que as outras cidades. Eram os centros econômicos, pois normalmente abrigavam as instituições financeiras, os prestadores de serviço e os comerciantes atacadistas.

Passado o tempo, o eixo que se criou foi o eixo central das Rodovias. A malha rodoviária brasileira ganhou musculatura e absorveu a função balizadora de desenvolvimento.

A característica importante das cidades do interior é a teia econômica que envolve as beiras de estradas que cruzam e servem como verdadeiros centros comerciais. São as estradas as verdadeiras fontes de irrigação do capital. É por ali que saem e entram os insumos básicos.

Quem nunca viajou pelo interior brasileiro e percebeu as inúmeras barracas que vendem diversos produtos aos que por ali transitam? O lugar especialmente escolhido são as localidades próximas as lombadas ou a postos policiais, onde os motoristas reduzem a velocidade e podem visualizar suas mercadorias de forma mais atenciosa.

É perceptível que muitas cidades se desenvolveram a partir das beiras de estradas, e foram desembocando para as extremidades. Houve assim uma inversão? Nada disso. O que se tem é a mais pura aplicação das teorias econômicas, que ativam suas transações a partir de focos centrais de giro financeiro para as margens que normalmente servem como dormitórios e abrigam as moradias.

É notável ainda duas áreas nestas cidades. A informalidade, que reconhecidamente sobrevive da venda de produtos agrícolas, como frutas de época ou produtos com manuseio simplórios, como milhos cozidos, ou até mesmo artesanatos e outra área de empresários que estabelecem restaurantes, postos de combustíveis e demais serviços.

As informalidades destas relações na beira de estrada denotam a ausência de estrutura produtiva capaz de agregar valor ao produto básico. Em diversos casos, são os agricultores que tentam escoar suas produções familiares através desta via. São crianças e adultos sempre buscando um novo passante para vender seus produtos.

Acredito que, caso tivessem maquinário específico, produtores de laranja, por exemplo, poderiam deixar de vender suas frutas a beira da estrada e comercializar sucos aos restaurantes e comércios locais. O valor agregado a produção ampliaria suas margens de lucros e tornariam suas atividades formalizadas.

Medidas como estas ajudam o município em sua arrecadação, geram empregos e garantem benefícios, como arrecadação previdenciária.

Enfim, a economia de beira de estrada retrata na verdade a forma como a ausência de estrutura produtiva pode emperrar o desenvolvimento local.

Perde-se a oportunidade de se agregar valor aos produtos, além de desempenhar atividades de forma informal, sem recolhimento de impostos, sem geração de riquezas, sem empregabilidade.

Muitos produtores e artesãos enxergam nestas atividades a única forma de distribuir seus produtos, que sem valor agregado reduzem seus lucros e impedem o progresso produtivo. Infelizmente, esta paisagem econômica é permanente em nossas cidades, mas não devem deixar de pensar em alternativas a estes postulantes. Sei que esta discussão merece uma abrangência muito maior, que o espaço aqui não me permite avançar, mas levanto aqui este questionamento: Como podemos evoluir nestas relações econômicas tão precárias e que são parte da paisagem brasileira?

Antônio Teodoro. Economista e professor.
 

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