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Cada emprego direto cria quantos indiretos?

Por Everaldo Leite

Existe no Brasil uma equação para medir a criação de empregos indiretos que, costumeiramente, vem sendo utilizada pelos governos e em cálculos de fomento à atividade produtiva. Especialmente o BNDES e os Fundos Constitucionais permitem que os projetos de investimento e cartas-consulta se utilizem desse cômputo, gerando automaticamente um montante de projeção de empregos um tanto curioso e duvidoso. A preocupação desta análise, portanto, é refletir sobre o quanto cada emprego direto cria em número de empregos indiretos.

A metodologia amplamente utilizada e, por ser tradicional, acriticamente empregada, é uma simples multiplicação do número de empregos diretos por três. Cada 10 empregos diretos criados por um determinado investimento resultará naturalmente em outros 30 empregos indiretos: uma criação concreta de 40 empregos. Ora, tal simplismo leva a crer que se assume naquelas instituições um número Pi (π) do emprego indireto, sem existir necessidade de maiores ponderações lógicas.

Como a literatura econômica nada fala sobre isso, é possível que o multiplicador "x3" tenha se formado por uma inferência estatística, que resultou numa sentença e que, por fim, se arraigou indiscriminadamente. Aliás, pode-se dizer que bons motivos existem para que esta sujeição tenha ocorrido. Para os objetivos sociais do governo, é sempre melhor dizer que se gerou 40 empregos do que 10. Para o BNDES também, assim como para os gestores dos Fundos Constitucionais e demais programas de fomento. Nas frentes keynesianas, vale um regozijo, por provar que multiplicadores existem e são virtuosos ao inflar as expectativas positivas.

Entretanto, ao refletir de modo lógico sobre a questão, observa-se um deslocamento cognitivo entre o multiplicador teórico e a realidade sensível. Imagine que a Loja de eletrodomésticos do José Pereira, em Indiavai, no Mato Grosso, quisesse expandir seus negócios criando um setor de venda de pneus e buscasse recursos públicos para isto. Como se poderia dizer que a criação de mais 5 empregos diretos poderia, a partir disto, automaticamente gerar mais 15 empregos indiretos? Que parâmetro se poderia utilizar? 5 empregos entre fornecedores, 5 empregos entre borracheiros, e 5 empregos no segmento de fabricação de rodas? Isto seria maravilhoso, 20 empregos gerados a partir de um pequeno investimento na expansão de uma loja do interior.

Obviamente que isto não ocorre assim. Sabemos que todos os negócios competitivos no mundo fazem parte de cadeias produtivas. E sabemos, por conseguinte, que cada empresa tem suas próprias características e potencial de encadeamento e de multiplicação de empregos diretos e indiretos. Uma empresa como a Perdigão, por exemplo, em Rio Verde, tem um potencial de encadeamento tremendo, gerando significativo montante de empregos diretos e indiretos. Mas, uma escola privada de ensino médio não demonstrará tal potencial, mesmo sendo indiscutível a sua importância para a comunidade local. Tanto dizer que o número de empregos indiretos gerados pela Perdigão advém do multiplicador "x3" pode ser uma enorme subestimação quanto para a escola seria uma ignóbil superestimação.

Agropecuária, indústria e comércio têm suas potencialidades na criação de emprego indireto de acordo com as cadeias produtivas em que se inserem, assim como cada segmento dentro destes setores também o tem conforme a sua posição na cadeia. Infelizmente, ainda não há uma regra geral séria que possa, na realidade, ser utilizada para antever, num investimento qualquer, a criação de empregos indiretos, somente a de diretos (se o investimento for bem projetado). Indubitavelmente, tem-se que analisar caso a caso de acordo com as oportunidades de propagação de novos negócios e de geração de renda.

Ademais, algo deve ficar claro aqui, os investimentos é que são verdadeiramente relevantes para a sociedade, pois está óbvio que não é a geração de empregos que realmente importa para o desenvolvimento econômico (isto é um efeito natural), e sim lançar mão de todas as oportunidades potenciais.

Everaldo Leite é economista e Conselheiro do CORECON-GO 18ª Região.

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